Camila – Uma lutadora cearense

08/06/2017 – Pouco mais de um ano atrás, aos 16 anos de idade, Camila Pessoa não seria capaz de definir o que é um esporte de combate. Hoje, ela está treinando para o Campeonato Nacional em duas modalidades: luta-livre e luta olímpica, disputando concomitantemente duas medalhas de ouro e uma potencial convocação para a Seleção Brasileira. Tudo isso, sem nunca ter perdido uma luta e já tendo ganhado medalhas de ouro em várias competições a nível estadual e interestadual. Essa ascensão repentina é na verdade resultado de uma coragem e determinação inabaláveis, enraizadas em um passado com uma infância difícil.

Tendo crescido em uma pequena cidade no interior do Ceará, no nordeste do Brasil, Camila deixou uma vida calma e simples e veio para o Rio de Janeiro, estudar, trabalhar, e como ela mesma disse: “conseguir algo mais”. Assim que chegou no Rio de Janeiro, descobriu que sua mãe, com quem ela tinha vindo morar,  tinha “desaparecido”, e por isso acabou indo morar com a tia e seus primos no Complexo da Maré. Na escola e em torno da comunidade, ela ficava perdida com os nomes dos esportes que os jovens falavam, e então ela pediu para a sua prima Duda, que praticava judô na Luta pela Paz, para trazer ela à Academia.

Camila adorou o ambiente da Luta pela Paz e se sentiu muito bem-vinda. Pouco depois ela tentou se inscrever em algumas aulas, e queria fazer judô, como a sua prima, mas como não tinha mais vagas, acabou se inscrevendo na turma de luta-livre, onde descobriu no fim das contas, que era onde o seu talento realmente estava. Alex (Cavalo) e Anderson (Mosquito), seus treinadores na Luta pela Paz, reconheceram o seu potencial e começaram a investir nos seus treinos. Uma ausência imprevista e dolorosa de dois meses por causa de problemas com a sua mãe, que luta contra a dependência química, apenas tornou Camila mais determinada, e ela voltou para a Academia mais focada e disposta a treinar. “Eu comecei a treinar pesado, a correr pela comunidade, a entrar em forma.” Ela tinha sentido falta da Academia, sempre mencionando o ambiente familiar, e como, muitas vezes, ela preferia estar lá do que em sua própria casa.

De volta ao treinamento, ela impressionou muito o Mosquito, e em janeiro deste ano ele selecionou Camila para competir no Campeonato Estadual de Luta Livre. Ela recompensou a confiança depositada pelo seu treinador com uma medalha de primeiro lugar na sua primeira luta. E continuou assim em fevereiro quando ganhou mais uma medalha de ouro em outra competição, desta vez contra atletas de todo o Brasil, se classificando para o Campeonato Nacional que acontece em junho, organizado pela Confederação Brasileira de Luta-Livre.

Não contente em competir em apenas uma modalidade, Camila começou a participar de competições de luta olímpica também. A sua carreira de luta olímpica seguiu o mesmo caminho estratosférico, e ela ganhou primeiro lugar em todas as competições das quais participou.  Agora ela se vê na posição de treinar para dois Campeonatos em modalidades diferentes dentro de uma semana, com a primeira começando no dia de 10 de junho.

“É isso.” Diz ela firmemente. “Se eu ganhar, posso ter a oportunidade de disputar pelo Brasil no mundo inteiro, em todos os tipos de competições. Vai ser a minha passagem para tudo, o meu portal para o mundo.” Se Camila ganhar, vai receber bolsa do Governo e será provavelmente convocada para a seleção Brasileira, o que mudaria o curso da sua vida. “Eu tenho que ganhar, é simples assim.”, ela me fala, com convicção absoluta. Esta determinação por um futuro diferente – combinada com um notável talento – faz da Camila uma lutadora de peso para qualquer oponente.