I Seminário Mulheres no Esporte

18/09/2018 –A última sexta-feira (14) foi dia das jovens destemidas da Luta pela Paz lançarem o seu manifesto durante o I Seminário Mulheres no Esporte, realizado no Refettorio Gastromotiva, com o apoio do Departamento do Estado Americano, da Universidade do Tenessee e do Consulado Geral do Estados Unidos no Rio de Janeiro.

O Seminário encerra o primeiro ciclo do projeto Destemidas, da Luta pela Paz, no qual jovens mulheres da Maré puderam aprender e exercitar técnicas de corrida aliadas a aulas de desenvolvimento pessoal ligadas à temática do empoderamento feminino.

“Acho que o nome que a gente criou (Destemidas) é muito forte e tem muito a ver com essas meninas. O projeto surgiu depois de uma entrevista que eu fiz com a Kathrine Switzer, a primeira mulher a correr maratonas, que quando acabou a entrevista e eu tava lá agradecendo pela mulher incrível que ela é, ela virou e disse: ‘Ao invés de me agradecer, dá para o esporte, tudo o que o esporte te deu’. E foi assim que eu acabei chegando até a Luta pela Paz com a idéia de criar um projeto de corrida. Hoje a gente comemora o marco que é um ano de projeto mas, sem dúvida, esse é só o início. O início de um processo que preza por mais igualdade de gênero. A união é o primeiro passo pra gente chegar a algum lugar porque a gente não chega sozinha e a gente estar juntas aqui hoje significa e muito o começo desse nosso movimento”, conta Carol Barcellos.

O evento contou com a participação de diversas mulheres que fazem a diferença diariamente, lutando para que muitas mais possam ocupar os espaços de competição e alto rendimento, torcida e do jornalismo esportivo – todos estes, ainda muito machistas e pouco abertos à participação efetiva e ampla de mulheres e meninas.

Como representatividade importa e muito, começamos o nosso dia de atividades com a fala de abertura e boas vindas de Ana Caroline Bello, ex-aluna da Luta pela Paz e atual gerente da Academia da organização.

Captura de Tela 2018-09-17 às 15.18.24

“Fui uma das primeiras meninas a participar das aulas de boxe da Luta pela Paz, esse esporte considerado extremamente masculino. E na época, eu junto com mais três meninas falamos: ‘Não! A gente vai fazer o boxe, porque a gente acha que é importante e vai trazer muitas coisas boas para a nossa vida’ e nós batemos o pé pra poder participar e, a partir daí, a organização passou a ter um outro olhar e hoje temos uma equipe de turmas bem equilibradas nesse sentido, com muitas jovens mulheres e meninas em todas as atividades. A mulherada hoje em dia tá ocupando vários espaços que elas já deveriam estar ocupando há muito tempo e eu fico feliz de ver que a Luta pela Paz tem acompanhado essa nossa luta diária. Por isso, ver as nossas alunas aqui hoje, enchendo esse auditório, pra mim, pensando em toda essa trajetória que levou a gente a chegar aqui, é uma conquista imensa. Mas uma conquista ainda maior é ver que hoje dentro da Luta pela Paz a gente tem uma equipe preparada para dar um suporte necessário aquelas que estejam sofrendo algum tipo de violência e ter um GT direcionado exclusivamente à temática de Gênero e Sexualidade. É um orgulho muito grande pra mim estar hoje como Gerente de Academia e saber que o meu trabalho faz a diferença na vida de tantas outras mulheres que estão tendo algumas das mesmas oportunidades que eu tive.”

Confira abaixo mais algumas das falas do nosso I Seminário Mulheres no Esporte:

C65A0357

“Minha história com os esportes de luta começa como forma de superar os traumas causados pela violência doméstica que eu presenciava em casa. Eu só conhecia a forma da violência e queria responder aquilo que eu via da mesma forma. Com o apoio da Luta pela Paz, eu pude ter o acompanhamento necessário do Suporte Social também e buscar outras formas de reagir. Hoje eu e mais algumas amigas da Luta pela Paz estamos começando a criar um novo projeto para mulheres da Maré acima de 28 anos, com o intuito de tirá-las de sua zona de conforto e ensiná-las defesa pessoal para que elas não sofram com a violência doméstica dentro de casa.”
Raíssa Lima, aluna e monitora da Luta pela Paz e destemida.

C65A0406

“O começo no judô foi bem sofrido, principalmente por ser mulher. Apesar da minha lesão, o judô é meu maior amor e a minha dor. É uma mistura de amor com dor surreal. Mas eu tô aqui. Eu sofri uma lesão em 2014 que interrompeu a minha carreira no judô. Eu tava com vinte anos e achei que ali seria o fim da minha carreira como esportista. Depois de um período de depressão em que eu ficava trancada em casa, sem querer sair, sem querer ver ninguém, eu tive muito apoio para conhecer o CT paraolímpico em São Paulo e saí de lá com um treinador. Eu tinha cinco meses para treinar para a última etapa. Eu pensei muito, treinei muito e disse pra mim mesma: Eu não vim pra cá a toda, eu não tô nesse esporte a toda. Eu não passei por tudo o que eu passei, pela depressão, pela dor do hospital, a toa. E meu objetivo é Tóquio. Eu vou estar em Tóquio.”
Tuanny Barbosa, atleta paralímpica de arremesso de peso

C65A0345

Agradecemos a todas as nossas convidadas que puderam fazer deste encontro um momento de celebração do projeto Destemidas, mas principalmente de luta para  a inclusão e respeito! Como bem dizem as jovens da Luta pela Paz em seu manifesto: SOMOS DESTEMIDAS E VAMOS LONGE!

Para conferir todos os painéis na íntegra, clique aqui e veja a gravação de nosso live no Facebook.  

*

Abaixo, o Manifesto Destemidas na íntegra:

“Somos mulheres, negras, periféricas!

Somos mulheres do Alemão, da Maré, do Ceará, do Maranhão.

Temos diversas orientações sexuais.

Somos mães, filhas, irmãs, primas. Passamos por muitos conflitos familiares, vivemos relacionamentos abusivos e diversas violências.
Somos incentivadas a ficar em casa o tempo todo.
Queremos sair! Ser livres!

Precisamos de apoio! Um espaço para nossos filhos! Espaço de escuta e acolhimento!

Precisamos e queremos exercitar a nossa sororidade e acolhimento!

Queremos ser respeitadas sem precisar ser agressivas!

Queremos estar no topo, mas não sozinhas!

Somos jovens, mas nossos passos vem de longe!

Somos destemidas e vamos longe!”