Kissila Trindrade, orientadora vocacional
da Luta pela Paz

04/12/2018 – Conversamos com Kissila Trindrade, orientadora vocacional da Luta pela Paz. Nesse papo em homenagem ao dia desse profissional tão importante para nossos jovens, ela fala sobre a importância desse trabalho e como tem sido sua experiência na organização.

“Em linhas gerais, formar jovens para que alcancem o seu potencial é a missão da Orientação Vocacional.

E acho que a primeira coisa que eu percebi trabalhando na Luta pela Paz foi o quanto a organização tem uma ideia que casa muito com essa nossa missão. Porque não é sempre assim. Geralmente, nas escolas, o Orientador Vocacional tem um desafio maior por não ter esse apoio institucional. Muitas vezes, a escola diz: ‘Vai sim. Você vai conseguir’. Mas se o aluno tira uma nota baixa, ele fica reprovado e não consegue.

Aqui na Luta pela Paz não: tem todo um dispositivo, todas as pessoas de todos os pilares (Educação, Empregabilidade, Boxe e Artes Marciais, Suporte Social e Liderança Juvenil) trabalhando, atuando para que o jovem consiga. E isso é muito bacana. A gente não tá só falando assim: “Corra atrás das oportunidades”. A gente fornece algumas oportunidades: É tudo real e palpável. E isso faz o nosso trabalho ser muito melhor.

A segunda coisa que faz o nosso trabalho ser apaixonante são os jovens. Em momento algum, eu vejo jovens que estão aqui porque foram forçados pelos pais e que não tem interesse no trabalho que tá sendo realizado. Eu vejo, sim, uma garra imensa de todas e todos. Eles querem muito e estão correndo atrás para conseguir as oportunidades. E quando você começa a falar com eles: ‘Olha, vocês merecem o melhor. Nós vamos juntos buscar o melhor pra cada um de vocês’ é muito interessante quando eles compram, de fato, essa ideia. Isso é emocionante. É o que eu mais gosto.

Tem uma jovem, por exemplo, que quando eu fiz o processo de Orientação Vocacional, trouxe sua história de vida e era uma trajetória muito difícil, porque a mãe tem um problema de saúde mental e a família bem sobrecarregada de problemas que a fez largar os estudos por um tempo. Então, ela chegou aqui se sentindo completamente culpada. Ela achava que ela tinha desperdiçado a vida dela, que ela estava mal por estar sem perspectiva e em uma idade na qual as pessoas já estavam concluindo a sua formação. Eu fui falar com ela pra entender o que era “desperdiçar a vida”. Comecei a questionar. Conforme ela foi falando, todo mundo do grupo foi se reconhecendo um pouco e concordando com ela. E eu questionei a turma, em geral, mas ela principalmente: ‘Fala a verdade: se hoje fosse o seu última dia de vida, você ia preferir passar o dia inteiro estudando ou o dia inteiro com a sua família?’ e ela respondeu: ‘O dia inteiro com a minha família’. Então, a gente começou a organizar as prioridades: ‘Você não desperdiçou vida. Ok, você passou aquele tempo, você deu aquele suporte para a sua família, e agora você vai correr atrás da sua carreira pra você continuar perto da sua família que é importante para você’. No dia seguinte ela voltou aqui, nem era mais dia de Orientação Vocacional, chorando, falando comigo que aquilo mudou a vida dela, que ela queria buscar um emprego melhor, que agora ela estava conseguindo sonhar. Porque, as vezes, nós ficamos tão presos ao passado, achando que a gente errou em uma ou outra coisa, que a gente não consegue enxergar uma possibilidade futura. E essa história dela me emocionou. Pensei: ‘Poxa, eu acho que eu tô fazendo uma coisa boa, eu acho que eu tô no caminho certo’.

Eu luto muito contra o “qualquer coisa serve”. Porque agora no módulo técnico do Na Ativa, o programa de Empregabilidade da Luta pela Paz, você tem uma gama de seis cursos que, mesmo não sendo tão ampla assim já é um grande momento de escolha para os jovens, e muitos já chegam dizendo que qualquer um serve ou que quer esse, mas se não tiver o outro serve. Uma pergunta que eu faço brincando pra eles é: ‘Se vocês fossem filhos do Silvio Santos, o que vocês iriam fazer?’. E muitas e muitos deles nunca se colocaram nessa situação. Sei que parece um exercício tão fácil, mas que muitos deles, por nunca terem se colocado antes, não conseguem pensar o que é sair dessa lógica do “qualquer coisa serve”. Então, a gente faz um trabalho de reforçar a autoestima e dizer assim: ‘Sabe o que é uma autoestima boa? É quando você consegue correr atrás do seu próprio bem. Você se enxerga merecedor do seu próprio bem e consegue correr atrás dele. O que é melhor pra você? O que combina mais com você? Que carreira vai te proporcionar uma oportunidade melhor de entrar no mercado de trabalho? Que via realizar os seus sonhos? O quanto você tá engajado para o seu próprio bem? O quanto você está engajado na sua decisão, nessa sua escolha?’. Conforme você vai mexendo nisso, eles vão entendendo que não é qualquer coisa que serve. Eu luto muito contra esse “qualquer coisa”. E é muito bonito ver que a primeira reação que aparece depois que eles saem desta lógica é o sentimento de ‘caramba, eu sou capaz de ter uma carreira na qual eu vou ser muito bom. E eu sou capaz de ter coisas melhores do que eu tenho aqui agora’. Muitas vezes eles têm ideias de sonhos, mas não são sonhos assim de “subsistência”, mas sim de um “sonho que vai me suprir agora”. E conforme eles vão pensando, eles vão criando perspectiva de crescimento, perspectiva de futuro. E isso eu acho que é a primeira coisa, o primeiro efeito que a gente consegue ver neles. E esse, talvez, seja o efeito mais importante. Porque, às vezes, quando a gente não tem perspectivas a gente não consegue nem mesmo se abrir pra conseguir pensar o que quer, nossos sonhos e para onde queremos ir. Eu acho, claro, que tem muitos outros elementos que a gente também tem que abordar, porque a Orientação Vocacional também é muito informativa. A gente tem que pensar na realidade de mercado sim, tem que pensar em relação a salário. Ás vezes eu brinco com eles: ‘Ah, eu quero ser técnico de enfermagem para ganhar um bom salário. Então você não quer ser técnico de enfermagem’. A pergunta é: ‘Você quer ser técnico de enfermagem? Você gosta de trocar fralda? Porque é uma realidade no hospital’. E, assim, a gente começa a chamar eles para a realidade também pra que seja uma escolha madura. O que é muito comum (que não seja), porque eles são jovens também. O sonho e tudo mais é muito importante, mas chamo também a atenção pra algo que eu acho muito importante que é a maturidade da escolha. Você tem que fazer uma escolha consciente do que que você quer e pra onde você está indo. E é muito interessante porque é assim que a maturidade deles começa a aflorar de tal maneira que eles conseguem escolher coisas que, inclusive, se desvinculam apenas da questão do dinheiro. Não é mais o ‘Ah, eu quero um salário de 8 mil’, mas um ‘Eu vou fazer isso porque é o que eu gosto’. Aqui na Maré a maioria dos jovens querem se sentir úteis, querem sentir que eles estão fazendo algo por uma causa. Isso você pode ver em praticamente todos os jovens. (Se) eles querem “fazer Administração”, eles querem para poderem ser úteis em tal causa e fazer o bem para as pessoas. Isso é bem geral, em todas as turmas.

Eu acho que se eu pudesse deixar uma mensagem para os jovens, o que eu mais gostaria de dizer para eles seria: ‘Não desista. A perseverança quando a gente tá no meio da carreira é uma parte muito importante’. O Orientador Vocacional é fica o tempo todo dizendo algumas verdades. A gente acorda cedo pra vir trabalhar cansado. O emprego, o trabalho, tem dessas coisas, mas o importante é que vocês encontrem um braço extremamente satisfatório nessa carreira que vocês estão buscando. O começo é difícil para todo mundo. A caminhada tem os seus percalços, mas o que eu espero é que vocês consigam encontrar a verdadeira satisfação no trabalho.