Foi em uma manhã de sábado, no dia 12 de Maio, que as mulheres da Maré puderam correr por ruas e vielas do nosso território, na 1ª CORRIDA DAS MULHERES DA MARÉ. Mais de 100 mulheres ocuparam este espaço público, que é nosso, e mostraram, na prática, que lugar de mulher é onde ela quiser.

Correndo unidas por 5 das 16 Favelas do Complexo da Maré (Parque União, Rubens Vaz, Nova Holanda, Baixa do Sapateiro e Nova Maré), as atletas correram por 3 quilômetros, largando da Casa das Mulheres da Maré (um centro construído e coordenado pela organização parceira Redes da Maré, com atividades direcionadas exclusivamente a elas) até a chegada na sede da Luta pela Paz. “Muitas mulheres passaram a conhecer a Casa das Mulheres e as próprias atividades da Luta pela Paz a partir desta nossa corrida. Ficamos muito felizes, porque esse foi um dos grandes motivos para realizarmos este evento!”, diz Nathalia Cardoso, gerente de Comunicação e Marketing da Luta pela Paz.

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Depois de correrem, nossas atletas puderam participar, ainda, de um aulão de Muay Thai, com a nossa instrutora e  atleta Jô Mello e conhecer demais organizações da Maré que marcaram presença na Feira de Serviços e também atuam nas áreas de Saúde da Mulher e na defesa de seus Direitos. Quem também, mais uma vez, marcou presença e correu junto conosco, foi a nossa embaixadora Carol Barcellos.

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Outra presença muito especial nesta corrida foi a de Maria Rejane. Mãe da nossa atleta Raíssa Souza de Lima, Maria corria ao lado da filha pela primeira vez. “É a primeira vez que vamos correr juntas, porque ela odeia esporte (risos). Estou empolgada, porque deve ser a coisa mais linda vê-la correndo”, nos conta Raíssa.

Na véspera do Dia das Mães, a Luta pela Paz se orgulha de tê-las conosco, principalmente por fazermos parte desta história de forma única.

Quando pequena, aos 9 anos de idade, Raíssa decidiu que faria boxe para defender a sua mãe da violência doméstica a qual sofriam diariamente.  A raiva do pai era tamanha que Raíssa chegou até mesmo a pensar em matá-lo. Mas, foi com a ajuda da Luta Pela Paz, que Raíssa pode afastar a raiva e se inspirar no exemplo de sua mãe. “O esporte me ajudou muito. Eu imaginava que a minha mãe fosse morrer na mão do meu pai, e eu ia ter que matá-lo de alguma forma. Às vezes, eu lembro da minha mãe dormindo, ele ia lá acordar ela para bater. Ela acordava assustada. Quantas vezes ele correu atrás dela com um facão para matá-la? Minha mãe nunca teve nem idéia de que eu procurei pela primeira vez o esporte com essa intenção, por isso acabou me levando. Mas foi justamente com o esporte, a assistência social e o apoio das psicólogas e pedagogas, que eu pude melhorar muito e entender o que estava acontecendo na minha casa, como podíamos agir. Depois de um tempo eles se separam e eu nem pensei mais em bater no meu pai”.

Depois do boxe e do karatê, Raíssa, hoje com 22 anos, acabou se rendendo ao judô e dá aulas da modalidade na Luta pela Paz e em cinco escolinhas na Maré, uma em Ramos e outra no Andaraí a crianças e jovens. Hoje seu maior sonho é terminar a faculdade dar uma casa para mãe e continuar ensinando mais meninas e meninos com o esporte. “Hoje eu entendo a importância deste processo transformador que o esporte proporciona, porque eu fui parte dele. Quero que cada vez mais crianças e jovens possam enxerga-lo dessa forma também. E que assim eu possa ajudar outras pessoas assim como puderam me ajudar”.

Fotos: Felipe Rangel e Cleiton Soares, Luta pela Paz.